terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dolce & Gabbana Winter 2011



De volta à banalidade parece ser o mote de quase todos os criadores (houve excepções).

A elegância dos pormenores das peças que conhecemos do presente ou de um passado impresso na nossa memória colectiva, parece ter sido a âncora usada pelos criadores contra a turbulência desta crise global.

Dolce & Gabbana entrou em introspecção, deitou fora o glamour dos brilhos mundanos e trouxe para runway partisanos comunistas: talvez arrependidos, ou não estivesse lá em fundo o filme de Tornatore: que independentemente da sua qualidade enquanto objecto cinematográfico, funcionou visualmente a 100% num desfile de moda.

A dupla fala uma vez mais na sicilia, nas raízes e na e sicialinidade, mas quanto a mim, o que tivemos foi a evocação, sem que Domenico e Stefano minimamente disso suspeitem, dos partisanos que um dia rumaram à Piazzale Loreto, para apedrejar um Mussolini enforcado e exposto à ira da população. Os mesmos partisanos, que foram capazes de acreditar, que era possível reerguer uma Itália dos escombros da guerra e que depois das paredes erguidas, com as suas mãos, a sua invenção e a sua criatividade, foram ainda capazes de operar o “milagre Italiano” da criação de um tecido industrial único no mundo, baseado quer na inovação técnica quer na valorização do saber fazer manual. Pelo menos até ao final dos anos 80, porque o que veio a seguir é já outra parte da história.

Bom, mas voltemos à colecção Winter 2011, porque se Domenico e Stefano à politica se dedicam, apenas o fazem em backstage e disto não nos fazem chegar nem imagens nem press releases.

Winter 2011 (não Fall Winter mas apenas Winter) é a colecção menos Dolce & Gabbana e também a colecção mais Dolce & Gabbana.

É a colecção menos Dolce Gabbana, pela aparente austeridade das silhuetas, pela conceptualização das formas, pela pureza espartana das cores e é simultaneamente a colecção mais imbuída da essência Dolce & Gabbana, pelo rigor (quase maníaco) do corte, das proporções e pela ênfase da sexualização absoluta da masculinidade. É uma sexualidade sensual, mas melancólica e introspectiva, que pouco ou nada tem a ver com a sensualidade gritante e histriónica a que já nos tinham habituado, mas independentemente disto, e apesar da dupla já está a ficar entradota na idade, com esta colecção, vieram uma vez mais recuperar o título: viagra da moda italiana.

Os conjuntos pretos de três peças (calça, colete, casaco) são perfeitos, as camisas brancas irrepreensíveis, as malhas (rasgadas, torcidas, amarrotadas), ora usadas em camisolas ora em casacos ora em calças e calções, são poéticas, inovadoras, transpiram sensualidade e conforto e embora pareça estranho, são até bastante usáveis. Os casacos de corte militar, são simplesmente maravilhosos, e as botas e sapatos, literalmente rafados e sujos de lama, são a nova quinta-essência da masculinidade, metáfora da memória dos quilómetros percorridos, não sobre as pedras dos caminhos: porque quer Rimbaud quer Van Gogh morreram jovens: mas sobre o asfalto das cidades, que é o hoje o único caminho de liberdade que os novos jovens deste século percorrem, jovens que ainda querem morrer jovens mas tarde na idade.

Os modelos de calças são infinitos, todos de vita bassa (sim, a anca masculina continua a ser uma zona erógena poderosa,) e corte exímio. Mais uma vez os jeans foram reinventados de forma refrescante, ao adoptarem subtilmente pormenores de calças de montar e indumentária militar.

O desfile conjugou de forma perfeita, imagens do último filme de Tornatore: Baaria, imagens transmitidas em directo do backsatge, a maravilhosa música de Ennio Morricone e o trabalho excepcional da editora de moda que coordenou a apresentação.

Parece que o filme do Tornatore é merdoso, não obstante ter sido a produção mais cara do cinema Italiano. Dizem as más-línguas que foi o preço que Tornatore teve que pagar a Berlusconi. O filme foi produzido pela produtora da criatura. Política e arte raramente se deram bem, mas adiante...

Voltando ao desfile, até a sala do Metrópole, cineteatro mítico de Milão, actualmente propriedade de Dolce & Gabbana e quartel general da dupla para a apresentação das suas colecções, pareceu voltar à sua função inicial.

Gostei de ver os gémeos tuga: Jonathan e Kevin. Em Dolce & Gabbana os gajos ganham um ar de macho durão inacreditável e delirei com o único momento em que há apenas dois modelos em passerelle, exactamente vestidos de igual, apenas variando a forma da lapela do casaco. O que foi aquilo? O par de noivos do desfile? A corte berlusconiana não deve ter gostado nada.

Gostei desta Dolce & Gabbana de novo voltada para o mercado Europeu (as últimas colecções pareceram-me mais direccionadas à Rússia e aos Emirados Árabes), mais conceptual e eternamente italiana.

Apoteótico o final com 100 machões suados em canotta que invadiram literalmente a passerelle para bazarem e não voltarem, como se uma gang fossem e uma tarefa urgente tivessem que cumprir. A metáfora parece ser: Nos tempos que correm, precisamos mais de roupas de trabalho braçal que de smokings.

Eu por mim, gosto de imagina-los a dirigirem-se à Piazza Duomo para tratarem da saúde a um tipo que eu cá sei e que é a actual vergonha dos Italianos, mas isso sou eu e cada um ainda tem direito à construção do seu imaginário individual.

Belíssimo!!!






































































































































































Fotos via www.menstyle.it

O link para o desfile aqui.

2 comentários:

amribeiror disse...

hum... assim de repente acho que vou passar aqui muitas vezes! :D

Abraço

poor guy fashion victim disse...

Procurarei que seja bem recebido.