
Assisti ontem na Culturgest à peça de Raimund Hoghe, Swan Lake, 4 Acts, trabalho que o coreógrafo, que já foi argumentista da Pina Baush, desenvolveu a partir da famosa música para bailado de Tchaikovsky.
Partindo das memórias colectivas, que a cultura ocidental guardou do mais famoso bailado da história, Raimund Hoghe "descasca" todas as imagens a esta peça associadas, e mostra-nos o essencial, quase só a partir do contraponto entre o seu corpo disforme de acordo com os padrões comuns que temos da beleza (Raimund Hoghe pouco mais tem que um metro e cinquenta e é corcunda), com os corpos atléticos de quatro bailarinos.
Raimund Hoghe encarna o príncipe e simultaneamente o cisne branco e o cisne preto, encarna a paixão que nos pode consumir, encarna os nossos medos da morte, mas também os sonhos que nos ajudam a ela fugir.
Recentemente tem havido verdadeiramente muito poucos espectáculos, capazes de me emocionarem, sem que no momento o perçeba, até às lágrimas. Ontem, perante a beleza avassaladora do trabalho de Hoghe, debulhei-me em choro, daqueles capazes de nos lavarem a alma.
Este Lago dos Cisnes, consegue ser um manifesto politíco, consegue ser uma expressão artística do que se chama teatro dança e consegue ser uma expressão filosófica da estética.
Político, porque entre muitas coisas, Hoghe, mostra-nos com extrema delicadeza, o esteriótipo em que estamos a tornar os nossos corpos, na procura de um determinado ideal de beleza. Político também ainda, quase manifesto, quando Hoghe, nos confronta com um príncipe que é ele, abraçado a um cisne branco que é um bailarino.
Expressão plástica, porque através de uma economia extrema de meios, o bailado resume-se quase só a um palco negro imenso e aos corpos dos bailarinos nele perdidos, consegue levar-nos a imaginar, sem qualquer esforço, as mais sublimes imagens. os bailarinos esboçam movimentos, que nós somos levados a completar com o nosso imaginário. Um movimento de braços leva-nos até um cisne que desliza sobre as águas. Flasbacks de virtuosos movimentos, despertam em nós imagens do ballet clássico. Os corpos dos bailarinos que mergulham no chão negro do palco, evocam-nos a morte do prícipe e do cisne branco nas águas do lago, mas também nos fazem sentir catárticamente, os nossos sentimentos de perda.
Expressão filosófica estética, porque conseguimos perçeber e sentir o essencial.
"... A inocência com que Hoghe sonha com a beleza, onde ele consegue camuflar na paisagem escondida o bando de cisnes, torna-se um símbolo dos nossos sonhos destruídos que cada um de nós carrega em si. E quando, com uma devoção infantil, chega o grande número de dança ele dispõe sobre o palco cisnes feitos de papel dobrado a fazer de bailarinos e se intromete de permeio como um cisne negro e corcunda, ou quando no final deita o seu corpo nu na tempestade de areia catártica para devolver com um sopro a vida a Lorenzo De Branbandere, o seu Alter Ego perfeito, vêm-nos as lágrimas aos olhos. ..."
Marianne Muhlemann, Der Bund, 18.06.2007 (Trad. Nuno Bon de Sousa)
Quando Hoghe no final se despe, colocando meticulosamente a sua roupa num saco de plástico, antes de mergulhar nú num palco coberto de areia, tal como o princípe do Lago dos Cisnes mergulha no lago gelado, confronta-nos com a nossa condição de mortais.
Perante esta Lago dos Cisnes, aperçebemo-nos que acabamos de assistir a um verdadeiro novo passo, na história da arte.
Sem comentários:
Enviar um comentário