Porque ainda hoje é o melhor que consigo escrever acerca do Natal, aqui fica.

O Autocarro no Presépio
Este ano tenho um autocarro de madeira pintada no meu presépio a abarrotar de passageiros, malas e todo o tipo de bagagens. Ontem tentei entrevistar alguns dos passageiros do autocarro para saber o que faziam ali no presépio. Queria saber se foram atraídos pela estrela, para onde iam, como tinham tido conhecimento do nascimento do menino, de onde vinham. Foi complicado porque a maioria não eram turistas mas apenas viajantes.
Um dos passageiros era uma senhora de quarenta e poucos anos que viajava com a mãe, um velhota desdentada e a filha de 14 anos espigadota e já a armar-se em senhora. Tinham ido as três a um casamento e regressavam agora a casa. A senhora falou-me do tempo da guerra e da paz, dos campos minados, dos ataques que eram feitos aos autocarros quando os homens ainda lutavam uns com os outros, das dificuldades antigas e das dificuldades actuais. Falou-me do SIDA e do problema que é as mulheres apanharem o SIDA, dos maridos que andam aí sem se importarem com elas. É que apesar de já não haver nem guerra nem ataques aos autocarros, nem as estradas estarem fechadas à circulação, as mulheres ainda não têm os mesmos direitos dos maridos. Tudo isto me é contado dentro do autocarro, que leva quatro vezes mais pessoas do que a sua capacidade permitiria, embalados pelo impacto das rodas nos buracos da estrada estreita e interminável. A filha da senhora pede-me emprestado o “lonely planet” enquanto vai olhando pelo rabinho do olho para um puto holandês, mais ou menos da mesma idade, giro, louro, urbano, ocidental e que viaja com os pais e o irmão mais novo uns bancos à frente.
A minha companheira de viagem conta-me que encontrou a capital do país muito suja, com muitos buracos, com muito lixo e muita bandidagem. Fez o percurso em cerca de duas semanas, aproveitando os familiares que tem entre as principais cidades para ir fazendo escalas. É manhã ainda e há nevoeiro, não o nevoeiro da Europa ou de Nova Iorque, mas o nevoeiro de África. Não é nevoeiro mas cacimbo, e lá vamos nós pela estrada fora entre os buracos aos solavancos. O vidro da frente do autocarro parece um vitral a preto e branco. Foi-se estilhaçando com os buracos da estrada e o tempo, então foram-lhe colando uma massa cinzenta e até o especaram com um piaçaba que o sustenta e impede de cair. Que importância tem ser um piaçaba? Penso!. Também meteram acrobantes nas catedrais. Pelo menos este piaçaba enfiado num pau de vassoura tem uma função bem concreta e até nem fica nada feio no conjunto. Sentado no fundo do autocarro é bonito ver a estrada através do vitral a preto e branco e consigo perder-me nele para entreter as horas e horas que ainda faltam para chegar.No fim da viagem, três dias depois e alguns autocarros, já perto do local onde a estrela foi vista, encontro uma ilha que tem palmeiras, casarões europeus a esboroarem-se e até uma fortaleza mais irreal e precária que um castelo de areia verdadeiro.
Chega-se à ilha através de uma ponte estreitinha de vários quilómetros. Tento encontrar a estrela, a cabana, o menino, mas em vez disso encontro três campos santos ao lado uns dos outros, um cemitério cristão, um muçulmano e um antigo espaço de cremação hindu abandonado. O mar que tudo rodeia é azul, muito azul. Tão azul como o céu que tem envolvido Lisboa nestes últimos dias frios, de Dezembro, luminosos e gelados. Como será o azul do céu no sul da Índia? Que tom ganhará o azul do céu em contraste com os rosas choque, os laranja e os amarelos do Sul da Índia? Se tivesse um Hindu do Sul no meu presépio perguntava-lhe.
AS
Lisboa, Dezembro 2004
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