sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Escrevi este texto há três anos depois da última viagem que fiz para um país onde não há nem uma loja Gucci, multimarca que seja, nem uma gay scene minimamente cosmopolita.
Porque ainda hoje é o melhor que consigo escrever acerca do Natal, aqui fica.



O Autocarro no Presépio
Este ano tenho um autocarro de madeira pintada no meu presépio a abarrotar de passageiros, malas e todo o tipo de bagagens. Ontem tentei entrevistar alguns dos passageiros do autocarro para saber o que faziam ali no presépio. Queria saber se foram atraídos pela estrela, para onde iam, como tinham tido conhecimento do nascimento do menino, de onde vinham. Foi complicado porque a maioria não eram turistas mas apenas viajantes.
Um dos passageiros era uma senhora de quarenta e poucos anos que viajava com a mãe, um velhota desdentada e a filha de 14 anos espigadota e já a armar-se em senhora. Tinham ido as três a um casamento e regressavam agora a casa. A senhora falou-me do tempo da guerra e da paz, dos campos minados, dos ataques que eram feitos aos autocarros quando os homens ainda lutavam uns com os outros, das dificuldades antigas e das dificuldades actuais. Falou-me do SIDA e do problema que é as mulheres apanharem o SIDA, dos maridos que andam aí sem se importarem com elas. É que apesar de já não haver nem guerra nem ataques aos autocarros, nem as estradas estarem fechadas à circulação, as mulheres ainda não têm os mesmos direitos dos maridos. Tudo isto me é contado dentro do autocarro, que leva quatro vezes mais pessoas do que a sua capacidade permitiria, embalados pelo impacto das rodas nos buracos da estrada estreita e interminável. A filha da senhora pede-me emprestado o “lonely planet” enquanto vai olhando pelo rabinho do olho para um puto holandês, mais ou menos da mesma idade, giro, louro, urbano, ocidental e que viaja com os pais e o irmão mais novo uns bancos à frente.
A minha companheira de viagem conta-me que encontrou a capital do país muito suja, com muitos buracos, com muito lixo e muita bandidagem. Fez o percurso em cerca de duas semanas, aproveitando os familiares que tem entre as principais cidades para ir fazendo escalas. É manhã ainda e há nevoeiro, não o nevoeiro da Europa ou de Nova Iorque, mas o nevoeiro de África. Não é nevoeiro mas cacimbo, e lá vamos nós pela estrada fora entre os buracos aos solavancos. O vidro da frente do autocarro parece um vitral a preto e branco. Foi-se estilhaçando com os buracos da estrada e o tempo, então foram-lhe colando uma massa cinzenta e até o especaram com um piaçaba que o sustenta e impede de cair. Que importância tem ser um piaçaba? Penso!. Também meteram acrobantes nas catedrais. Pelo menos este piaçaba enfiado num pau de vassoura tem uma função bem concreta e até nem fica nada feio no conjunto. Sentado no fundo do autocarro é bonito ver a estrada através do vitral a preto e branco e consigo perder-me nele para entreter as horas e horas que ainda faltam para chegar.

No fim da viagem, três dias depois e alguns autocarros, já perto do local onde a estrela foi vista, encontro uma ilha que tem palmeiras, casarões europeus a esboroarem-se e até uma fortaleza mais irreal e precária que um castelo de areia verdadeiro.

Chega-se à ilha através de uma ponte estreitinha de vários quilómetros. Tento encontrar a estrela, a cabana, o menino, mas em vez disso encontro três campos santos ao lado uns dos outros, um cemitério cristão, um muçulmano e um antigo espaço de cremação hindu abandonado. O mar que tudo rodeia é azul, muito azul. Tão azul como o céu que tem envolvido Lisboa nestes últimos dias frios, de Dezembro, luminosos e gelados. Como será o azul do céu no sul da Índia? Que tom ganhará o azul do céu em contraste com os rosas choque, os laranja e os amarelos do Sul da Índia? Se tivesse um Hindu do Sul no meu presépio perguntava-lhe.
AS
Lisboa, Dezembro 2004


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